segunda-feira, 12 de outubro de 2009

[oxidación]





OXIDACIÓN

A Chloé Vz


El aire oxidado de tus fotos
Comparte con el color de tus
Pelos una intimidad de cajones
Abiertos y álbumes desordenados:
– Tú naciste para ser antigua, delicada
Añoranza hecha de películas y cartón.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

[vanidad]



Varal Escarlarte com Mulher - Gaspar de Jesus
(Foto gentilmente apresentada por La Vanu, no seu blog admiradores de varais)


VANIDAD

Eclesiastes 1:14

Mira el cielo
Averigua sin miedo
Los presagios

Miles de dioses
Seguirán su carrera
Hacia la nada

Ajena cuelgas
Las sábanas depuestas
Señal de tregua

También se pierde
Bajo esta mirada
La eternidad

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

[noite de tango]

NOITE DE TANGO

Buenos Aires em chamas
Sob os teus passos
As milongas crepitam

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

[lágrimas]

LÁGRIMAS


A Serena Reno


Cuando me voy a tierras lejanas
Y la arena de la estrada hiere a
Mis ojos, los cierro, pienso en ti,
Y pronto me viene el consuelo
De recuerdos y sonrisas salinas.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

[pôster na parede]

PÔSTER NA PAREDE

— Em você? Em você eu gosto do que é desajustado, torto, feio. Seria muito óbvio gostar dos seus olhos verde-mar, do teu cabelo molhado, do teu corpo venéreo e úmido – corpo de Vênus aquática. Gosto é do teu aparelho com borrachas rosas, da sua sem-vergonhice, do seu desdém. Gosto mesmo é quando você não sai bem nas fotos: essas são as mais originais. Gosto desse dedo a mais que você leva na testa, da sua maneira vulgar de se exprimir, do seu rosto de contornos ligeiramente eqüinos. Gosto da tua boca extravagante, histérica, quase à maneira de Münch (logo eu, que sempre preferi os impressionistas). Sem nada disso você seria previsível, aborrecidamente previsível, pôster na parede. Mas com tudo isso... ah, com tudo isso você me arrebenta todo.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

[liturgia]

LITURGIA

A Camila N.F.


Nem a virgem santíssima
   inspirou mais devoção que
      as suas tragadas à porta

Nem as línguas misteriosas
   geraram mais reboliço que
      o seu sotaque inesperado.

E a dúvida que o apóstolo
   resolveu em três lances
      você só reverteu em 40;

E o beijo negado à despedida
   (certamente para não dar margem
      a traições) se transformou em

Esperança remota, tão antiga
   quanto promessas que não se
      cumprem: – Pois então, se um

Dia nos encontrarmos ao acaso,
   eu lhe reconhecerei num instante.
      Mas nunca às noites de sexta,

         Que são sagradas.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

[guardanapos]

GUARDANAPOS

A Camila N.F.

Nunca fui de acreditar
Que guardanapos trocados
Em noites de conversa fiada
Preenchessem espaços vazios.
Mas ao contrário dos prognósticos
Desfavoráveis o teu nome e telefone
Resistiram ao ímpeto das lixeiras e souberam
Suprir a ausência de dinheiro na minha carteira.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

[reír llorando]

REÍR LLORANDO

Viendo a Garrik —actor de la Inglaterra—
el pueblo al aplaudirle le decía:
«Eres el mas gracioso de la tierra
y el más feliz...»
Y el cómico reía.

Víctimas del spleen, los altos lores,
en sus noches más negras y pesadas,
iban a ver al rey de los actores
y cambiaban su spleen en carcajadas.

Una vez, ante un médico famoso,
llegóse un hombre de mirar sombrío:
«Sufro —le dijo—, un mal tan espantoso
como esta palidez del rostro mío.

»Nada me causa encanto ni atractivo;
no me importan mi nombre ni mi suerte
en un eterno spleen muriendo vivo,
y es mi única ilusión, la de la muerte».

—Viajad y os distraeréis.
— ¡Tanto he viajado!
—Las lecturas buscad.
—¡Tanto he leído!
—Que os ame una mujer.
—¡Si soy amado!
—¡Un título adquirid!
—¡Noble he nacido!

—¿Pobre seréis quizá?
—Tengo riquezas
—¿De lisonjas gustáis?
—¡Tantas escucho!
—¿Que tenéis de familia?
—Mis tristezas
—¿Vais a los cementerios?
—Mucho... mucho...

—¿De vuestra vida actual, tenéis testigos?
—Sí, mas no dejo que me impongan yugos;
yo les llamo a los muertos mis amigos;
y les llamo a los vivos mis verdugos.

—Me deja —agrega el médico— perplejo
vuestro mal y no debo acobardaros;
Tomad hoy por receta este consejo:
sólo viendo a Garrik, podréis curaros.

—¿A Garrik?
—Sí, a Garrik... La más remisa
y austera sociedad le busca ansiosa;
todo aquél que lo ve, muere de risa:
tiene una gracia artística asombrosa.

—¿Y a mí, me hará reír?
—¡Ah!, sí, os lo juro,
él sí y nadie más que él; mas... ¿qué os inquieta?
—Así —dijo el enfermo— no me curo;
¡Yo soy Garrik!... Cambiadme la receta.

¡Cuántos hay que, cansados de la vida,
enfermos de pesar, muertos de tedio,
hacen reír como el actor suicida,
sin encontrar para su mal remedio!

¡Ay! ¡Cuántas veces al reír se llora!
¡Nadie en lo alegre de la risa fíe,
porque en los seres que el dolor devora,
el alma gime cuando el rostro ríe!

Si se muere la fe, si huye la calma,
si sólo abrojos nuestra planta pisa,
lanza a la faz la tempestad del alma,
un relámpago triste: la sonrisa.

El carnaval del mundo engaña tanto,
que las vidas son breves mascaradas;
aquí aprendemos a reír con llanto
y también a llorar con carcajadas.





Juan de Dios Peza

sexta-feira, 1 de maio de 2009

[diacríticos]

DIACRÍTICOS

Talvez você nunca saberá
– ou talvez eu nunca te
contarei – que legiões
inteiras são dispersadas
à força da sua prosódia

Ininteligível.

domingo, 12 de abril de 2009

[da graça]

DA GRAÇA


Entra no claustro, acende
   os incensos e morde os
      lábios

Contrita, repousa o peso dos
   teus pecados sobre os
      joelhos:

Você, que já suportou de
   tudo, suporta mais essa
      provação.

Partilha comigo as tuas
   culpas e eu pagarei
      o preço dos teus

         pecados.

terça-feira, 24 de março de 2009

[da comunicação]

O sofrimento devido à falta de comunicação e essa satisfação única que a autêntica comunicação nos proporciona não nos dariam tão forte abalo filosófico se, na nossa absoluta solidão, tivéssemos a certeza da verdade. Eu, porém, apenas sou alguém com o outro, sozinho nada sou.


Karl Jaspers
Iniciação Filosófica, p.30.

sexta-feira, 20 de março de 2009

[oh, façam silêncio!]

Ah, tudo é barulhento. Assim como se diz que uma bebida forte agita o sangue, assim também tudo nos nossos dias, mesmo o mais insignificante projeto, mesmo a mais vazia comunicação, é meramente designada para sacolejar os sentidos ou agitar as massas, a multidão, o público, barulho! E parece que nós humanos, nós companheiros, nos tornamos insones a fim de inventarmos sempre novos modos de aumentar o barulho, de espalhar barulho e insignificância com a maior facilidade possível e na maior escala possível. Sim, tudo foi virado de cabeça para baixo. Os meios de comunicação têm sido aperfeiçoados, mas o que é promovido com tal impetuosidade é lixo! Oh, façam silêncio!


Søren Kierkegaard

in Provocations. Spiritual Writings of Kierkegaard. Compilado e editado por Charles E. Moore. Farmington: The Bruderhof Foundation, 2002. p.372
http://www.plough.com/ebooks/Provocations.html

sábado, 21 de fevereiro de 2009

[la invasión]

LA INVASIÓN

A N-E.M.C.

A través de la oblicuidad de una lámpara
Apenas y mal encendida, ajustamos nuestras
Gafas monofocales lo mejor que se pueda
Y nos movemos entre-cortes y tumbados
Con el firme propósito de seguir lo que
Las normas dictan entre risas: y es que a
Los afectados, apestados y virulentos del
Mundo, a estos les espera el cautiverio.
Así que cuando cerramos las ventanas y
Volvemos a ocultar nuestras cicatrices,
Imaginando que no hubo una sóla palabra
Que no fuera calculada (ni dicha)
Desde sarcasmos y ambivalencias,
Nos viene acaso la certeza:

Pero todo lo demás sí fue verdad.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

[litografía]

LITOGRAFÍA

A Stella Tranchina

Pupilas contritas por lágrimas
   Borran imágenes
      Felices.

Todavía no se sabe qué o
   Quién vendrá al
      Encuentro,

Pero sí se sabe que no
   Vendrá hasta que se
      Olvide

Los caminos en los que
   Uno se extravía por la
      Memoria.

domingo, 19 de outubro de 2008

[tajine]

TAJINE

A Katharina Ehmann

Sentar-se à mesa
   Silenciosa
      E surpreender-se:

Mãos comungando
   No tacho
      Estrangeiro.

Surpreender-se ainda com o
   Instante no qual as repostas
      Precedem as perguntas.

(Palavras mal pronunciadas de um
   Canto
      Distante se derramam sobre a
         Toalha.)

As mãos,
   Antes comprometidas,
      Separam-se.

As repostas voltam a
   Seguir-se às
      Perguntas.

Ainda em cuias, as mãos
   Dão-se conta do desperdício.
      — Mas fingem.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

[da contradição]

Todo autor tem um sentido no qual todas as passagens contrárias se acordam, ou não tem sentido algum.

B.Pascal
Pensamentos, excerto do parágrafo 684 da edição Os Pensadores.

[verdade e método -- limites da linguagem]

Há sempre um querer-dizer, uma intenção que vai além, ou ao lado, daquilo que foi apreendido na linguagem e em palavras e toca o outro. Uma procura nunca satisfeita da palavra exata - eis o que determina a vida real e a essência da linguagem.

H.G.Gadamer

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

[quando se é humano?]

Uma vez que o Indivíduo se caracteriza por sua relação com a finitude, com a sua finitude, é justo pensar que sem a experiência do fim, da morte, o Indivíduo permanece como que incompleto, pois ainda não realizou um dos seus traços mais fundamentais -- e último na ordem da existência. Somente quando morre podemos dizer do Indivíduo que ele cumpriu a sua humanidade. No entanto, deparamo-nos com esta pitoresca ironia na qual para se realizar de maneira integral a sua humanidade, deve-se deixar de ser humano.

domingo, 5 de outubro de 2008

[passeio à tarde]

PASSEIO À TARDE

Was wirst du tun, Gott? Ich bin bange.
Rainer Maria Rilke

A José Eduardo

Sendo destro e fumante, benzeu-se com a mão esquerda. Agradeceu a comida sem gosto e à porta de casa repetiu o ritual e a consumação do vício. No caminho viu a euforia do louco que dançava sob os olhares de uma compaixão sem esmolas. Revisitou, por tédio, acontecimentos antigos e perversos. Deu-se imediatamente conta, se bem com certa relutância do espírito, que sem memória não há perdão. Tratou de esquecer. Sentiu-se perdido por um momento, mas não tardou a reconhecer os becos e vielas de sempre. Tornou-se-lhe claro que a mão esquerda se sacrifica para que a direita se poupe. (Aí estava a justa economia, toda a justiça.) De volta a casa, sem coragem para praguejar, curvou a cabeça e bendisse.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

[o corpo de bach]

Espírito e corpo reconciliados. Não porque apagaram as diferenças. Porque as assumiram. E agora, de perto, transposta toda a dormência, se estranham e se encaram. E se completam. (Toda harmonia terá seu fundo de tensão. Irremediavelmente.)


sábado, 13 de setembro de 2008

[jogo das 50 palavras]

A proposta era inventar uma narrativa em língua inglesa que contivesse justas 50 palavras, nem mais nem menos. Vale lembrar que as contrações valem como uma só palavra e que o título não conta. O exercício (desafio) é bem interessante.


SIGNS

Joe was an atheist. He hated his life; he wanted to change it drastically, but he needed some encouragement. Casually he read on a church board: "Don't give up!". Misteriously that was the sign he needed to make such changes. His corpse was found four days later - he looked happy -.

sábado, 30 de agosto de 2008

[breviário de uma paixão]



BREVIÁRIO DE UMA PAIXÃO

A Claudia
A Mauricio Campista


Banhou o corpo com óleos amadeirados e ungüentos que sabiam a cravo. Saiu tímido porém determinado em busca da sua condenação. Hesitou por um instante, se afligiu, não pelo sono nem pelo silêncio, mas por causa das contrições e gemidos que se podem adivinhar na madrugada. Foi desamparado em meio a promessas de recompensa e exclusividade. Saiu de lá; lábios de pernoite o aguardavam. Houve o percurso e os juízos. Não haviam lhe achado mácula alguma e nem por isso o corpo que carregava se lhe tornou mais leve. Foi a outro lugar, não desistiu (destino é coisa que se cumpre). — Se agarraria ao seu corpo como quem se agarra à sua salvação. O tropeço que lhe aliviaria estava próximo, ao dobrar da esquina. Encontrou ali parada e de expressão difícil quem lhe daria o consolo do seu corpo. Lhe beijou a testa (com cuidado para não magoar ainda mais a carne langorosa), beijou-lhe a testa e o albergou em braços expeditos. Suas barrigas se tocaram intimamente. Sentiram algum embargo e a contração do diafragma. Suas coxas lentas, mas não pesadas, se moviam com sofreguidão. Suas mãos reconciliadas constrangeram uma a outra. Se encararam pela última vez.
Estava consumado. As 30 moedas – conforme o acordado – foram pagas em adiantamento e sem remorsos.

domingo, 24 de agosto de 2008

[sobre o apostolado do artista]

[...] Kierkegaard, que reconhecia um quando via um, define o genuíno autor em termos da sua relação moral com o seu trabalho e o seu público: assumindo uma posição por conta própria, o verdadeiro autor pode dar à época aquilo que ela precisa, não o que ela demanda, enquanto o artista fraudulento fará "uso da enfermidade da nossa época" (p.5) ao satisfazer as demandas dela; o genuíno autor "precisa comunicar ele mesmo" (p.8), enquanto o falso autor se encontra simplesmente em carência (de elogio, de ser requisitado, de saber se ele quer dizer qualquer coisa ou não); o genuíno é um médico que provê remédios, o falso é um homem doente, e contagioso (p.11). [...]

[...] ele - o verdadeiro artista - é arrancado das massas por uma mensagem que ele deve, na dor da perda de si, comunicar; silencia por um longo período, até que acha seu modo de dizer aquilo que precisa dizer (falando artisticamente, isso poderia ser expresso ao dizer que enquanto ele poderia, como os artistas em tempos anteriores faziam, começar e, por um longo espaço de tempo, continuar imitando o trabalho de outros, ele sabe que isso é meramente um tempo de espera - se é uma preparação, não é uma preparação artística -, pois sabe que não há técnicas à disposição de quem quer que seja para dizer aquilo que ele tem que dizer); não tem nenhuma prova da sua autoridade, ou genuinidade, a não ser seu próprio trabalho (cf. p.117) (artisticamente falando, isso é expresso pela ausência de convenções dentro das quais compor); faz do seu trabalho algo repulsivo, não, como no caso do apóstolo, por causa do perigo que ele é para os outros (p.46), mas porque a mera atração não é o que ele quer (artisticamente, isso tem a ver com os vários modos nos quais a arte tem, hoje, sido retirada, ou requerida a frustrar, o seu público); deve negar a sua autoridade pessoal ou mundana com vistas àquilo que ele tem que fazer (artisticamente, isso significa que ele não pode confiar nas suas realizações passadas como se assegurassem a relevância do seu novo impulso; cada trabalho requer, espiritualmente falando, um novo passo); a arte não é mais uma profissão à qual, por exemplo, um homem pode ser iniciado como aprendiz (religiosamente falando, é um "chamado", mas não há nenhum chamado reconhecido no qual ela possa ser exercida); finalmente, o fardo de ser chamado a produzir coincide com o risco de aceitá-lo (religiosamente falando, em aceitá-lo ou rejeitá-lo, o coração é revelado). Espera-se da arte produzida sob tais condições espirituais que ela tenha uma aparência estranha e inaudita. [...]

Stanley Cavell
Kierkegaard's On Authority and Revelation
in Must We Mean What We Say? A Book of Essays
Cambridge: Cambridge University Press, 1969. pp. 163-79.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

[proximidade à distância]


Jan van Eyck. O casal Arnolfini (detalhe), 1434

Jan van Eyck tentou reproduzir à perfeição o cenário natural. Não porque quisesse substituí-lo nem retocar-lhe os defeitos. A natureza lhe parecia perfeita. Tampouco queria reproduzir sua perfeição apenas por capricho: sabia-se incapaz. Afinal, seu objetivo não era afastar nem os seus nem os olhos de ninguém da realidade em favor das suas pinturas. Todo o contrário. Desejava era aproximar os olhos da realidade. Ao tentar reproduzir-lhe a perfeição, pensava que com isso poderia chamar a atenção à beleza e ao arranjo único do mundo. Minorava o mundo para torná-lo mais acessível. Mas o processo mesmo de simplificá-lo exigia-lhe todo seu esforço e talento. (Fazer com que a coisa pareça mais fácil do que ela realmente é é trabalho de grande complexidade.) E uma vez tornado acessível (por vias artificiais), o mundo deveria resurgir em todo o seu espanto (por vias naturais). Se o artista se afastava um passo da realidade, era porque tentava se aproximar outros dois dela.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

[o verme e a estrela]


MusicPlaylist


Agora sabes que sou verme,
Agora sei da tua luz.
Se não notei minha epiderme...
É, nunca estrela eu te supus.
Mas se cantar pudesse um verme,
Eu cantaria a tua luz!

E eras assim... Por que não deste
Um raio brando ao teu viver?
Não te lembrava. Azul-celeste,
O céu, talvez, não pôde ser...
Mas ora!, enfim, por que não deste
Somente um raio ao teu viver?

Olho, examino-me a epiderme,
Olho e não vejo a tua luz!
Vamos que sou, talvez, um verme...
Estrela nunca eu te supus!
Olho examino-me a epiderme...
Ceguei! Ceguei da tua luz?

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

[olhos e eternidade]


Hélène Schjerfbeck. Retrato de Menina - 1886

Certa vez li algures que a relação que o Indivíduo mantém com a eternidade se manifesta na intensidade do seu olhar. Suspeito que essa característica especial dos olhos se deve pelo fato de que eles se comunicam no silêncio. Revelam o outro na intimidade de si. Não são como as mãos ou a pele que também se comunicam na imediatez da não-palavra, mas que são incapazes de interiorizar a oposição: a diferença permanece como uma relação exterior, o outro ainda não foi devidamente acolhido. Todo abraço, por longo ou forte que seja, terá essa sensação de frustração, de algo inacabável e insuficiente. E isso porque é como se se quisesse se fundir com o outro, desrespeitar-lhe a distância, desmanchar sua alteridade contra o próprio corpo. Mas isso é impossível. E é então que se afasta um pouco do outro, põe as mãos no seu rosto e o olha com incredulidade. É esse olhar embebido do outro que o reflete como imerso em si mesmo.

Hélène Schjerfbeck (1862-1946) costumava pintar auto-retratos. Com o tempo, já no final de sua vida, restaram-lhe apenas os olhos. Haverá sobrado apenas sua relação com a eternidade?

segunda-feira, 28 de julho de 2008

[torre de babel]




TORRE DE BABEL

A Tamia Vercoutère

Entre rumores de tijolos e baldes de cimento, algo tomava forma, uma torre talvez. Tortuosa, a construção seguia sempre adiante, com intervalos regulares que, antes de justificar qualquer cansaço, eram destinados aos arremates dos espaços vazios. As dobradiças tomavam pouco a pouco seu lugar nas frestas que lhes eram destinadas e sobre seus eixos começaram a girar portas e janelas através das quais o mundo rangia. E antes mesmo que o que era fresco pudesse secar – a tinta no corpo e o sangue no prego –, ouviu-se alguma marreta obrar conforme sua natureza. Consoante a ela, a chuva sobre o alpendre. Embora os círculos concêntricos não tivessem ainda tocado seu destino, festejaram a grande obra diante de um nicho sem imagens. E se se dispersassem pelo deserto não seria por ciúme dos deuses, mas por vertigem.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

[seriedade da melancolia]

... Porque Deus a um dá muita alegria na vida e o torna mudo, e a outro nega muita alegria na vida e o torna eloqüente, não existe então igualdade? A um, Deus o faz grande no mundo e o torna invejado; a outro, faz humilde no mundo e o torna bendito - não existe então igualdade? A um, Deus concede a amada, mas ela lhe conturbou a mente; a outro, nega a amada, mas preserva-lhe a mente - não existe então igualdade? A um, Deus concede os louros do mundo, e eis que ele deles se apropria; a outro, o deixa desprezado no mundo, e eis que ele (o desprezado) dá honra a Deus. Não existe então igualdade? Alguém talvez dirá: "Não é verdadeiro o que tu dizes desta igualdade, até na voz de quem fala existe melancolia..." Sim, está certo, existe a melancolia e deve ser assim, porque, sem um traço de melancolia, todo discurso sobre a vida do homem aqui embaixo é rouco e destoado. Sim, certamente existe a melancolia, porque também aquele que fala sonhou sua fábula de juventude, a velha fábula que todos conhecem, aquela que se conta às crianças quando não dormem: "... lá embaixo, no fundo do bosque, ele viu um velho castelo onde morava uma princesa". E, certamente, ele, mesmo assim, não encontrou o mundo, mas, a igualdade, não a encontrou nem na fábula.

Søren Aabye Kierkegaard
(Das Profundezas: preces. São Paulo: Edições Paulinas, 1990. p.43s)

segunda-feira, 21 de julho de 2008

[panta rhei]


Henri Matisse, Nu Bleu II, 1952


PANTA RHEI

A Clara Benatti

Tu e eu, solidários à sorte de todos os rios, cujos braços sinuosos se agarram – o que temerão? – às bordas do leito desfeito pelos refluxos da noite anterior. Tu e eu, que confluímos, indistinguíveis, entre as margens irreconciliáveis que nos justificam. E convém que assim seja: o rio pára de correr quando uma margem encontra a outra, tu e eu.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

[títeres]

Abrem-se as cortinas. Silenciosos, os títeres se movem sobre o palco. Mãos discretas os sustentam; importa ser delicado para que o público não seja desperto. Quanto mais escondido o titerista, mais real é o espetáculo. A limitação gera novas realidades. Mas e se um dos espectadores desviar os seus olhos da cena principal?

Véronique peca porque descobre por meio do reflexo embaçado de um espelho os movimentos do titerista e, assim, se esquece dos títeres - se esquece, portanto, do principal, já que os títeres são a razão do titerista. A limitação gera novas realidades, é certo - o titerista oculto e seus fios invisíveis -, mas também é certo que basta a obliqüidade de um espelho mal posto, de um reflexo inoportuno e indiscreto para que toda a representação perca seu encanto. A limitação era o que lhe garantia o detalhe, a graça do detalhe, a passagem da indiferença à gratuidade.

O bom titerista é aquele que deixa suas criações se criarem a si próprias. Dança com elas, se apaixona por elas, morre como se fosse uma delas e, no entanto, o faz no mistério. O mistério de si assegura a autenticidade de sua manifestação. Seu propósito é seduzir, insinuar-se. Não pode apresentar-se diretamente, mas tampouco pode ser totalmente ignorado: em ambos os casos o espetáculo seria falso demais. Deve deixar aberto um espaço de comunicação, de entre-linhas, de ambigüidade. Deve deixar aberto um espaço passível de ser alargado ainda mais. O bom titerista é, pois, aquele que revela a existência do mistério, mas nunca o mistério ele mesmo.

E, contudo, Véronique se encanta ainda mais com o que vê na obliqüidade. Perdidamente.



Filme: La Double Vie de Véronique (A Dupla Vida de Véronique)
Ano: 1991
Diretor: Krzysztof Kieslowski

quarta-feira, 16 de julho de 2008

[comunicação indireta]

A verdadeira comunicação será aquela que for capaz de envolver o outro e, porque envolvente, indireta. Será envolvente, e não dominante, porque também se deixará envolver. Será verdadeira não pelo seu conteúdo, mas por causa de sua forma. Agarrar-se-á ao outro exclusivamente para que o outro ganhe forças para se libertar, assim como fugirá do outro, não para se perder dele, mas unicamente para que o outro ganhe forças para alcançá-la. Será, enfim, indireta porque não se impõe ao outro (e se o faz, é por artifício), mas antes propõe o outro a si mesmo.

Comunicação indireta: diálogo de casal de tango (me perdoe a recorrência do exemplo...).

segunda-feira, 14 de julho de 2008

[monstros]



MONSTROS

A Leonardo Reboredo

Se aquele estranho e súbito pressentimento (que mais se parecia com uma indisposição) estivesse correto, se realmente não existissem monstros, então seus maiores medos se tornariam realidade. Não poder apontar alguém como uma exceção bizarra do que deveria ser um autêntico ser-humano, com todas as suas elevadas aspirações morais e sentimento de altruísmo, não poder dizer que todos os horrores até hoje cometidos – todas as mesquinharias, as mentiras, as traições, o ódio, a violência em seu estado mais instintivo e, o que é pior, em seu estado mais requintado, tudo isso, sem exceção – foram levados a cabo por pessoas desumanas e estranhamente cruéis, mas muito pelo contrário, por pessoas como ele próprio, feitos todos da mesma substância e sob a mesma moldura, lhe era inadmissível, quase uma ofensa. Não havia senão irmãos ao seu redor, Caim e Abel vivendo no mesmo jardim. Ou todos eram monstros ou nenhum o era. A primeira opção lhe soara inverossímil, posto que jamais havia sido uma pessoa má ou desonesta e, ademais, não poderia desconsiderar assim tão levianamente todos os seus reiterados esforços de ser não somente agradável e útil às outras pessoas, mas ser um homem bom, em tudo o que essa palavra possa invocar de grandeza e desprendimento. (Não era raro vê-lo distribuindo sorrisos a porteiros e bom-dia aos vizinhos, sendo amável à exaustão.) Absolutamente ele não poderia ser um monstro; esta era uma opção absurda. Descartou-a. Mas então sobrou-lhe apenas a consideração, não menos assustadora, de que não há monstros. O que, em outras palavras, queria dizer que havia uma desconcertante comunhão entre aquilo que se reprovava e o reprovador. Não quis (não podia) aceitá-la. Não ser diferente, fundamentalmente diferente da escória do mundo lhe causava calafrios. Desconfiar que ele mesmo era capaz de se tornar um monstro, já que estruturalmente nada lhe impediria a tanto (aquilo que lhe faz humano faz humano a todos) era algo intolerável. Tremia só de pensá-lo. E o que lhe fez tremer mais ainda, a ponto de desabar, foi se dar conta de que não se tratava de se transformar em um monstro, pois que em nenhum momento, nem nos melhores nem nos piores, se deixa – não temos esse privilégio – de ser homem. Se deu conta, finalmente, de que Caim era seu irmão de sangue, o caçula, e que por muito pouco não foi ele quem nasceu agarrado ao seu calcanhar. Esta descoberta lhe arrebentou todo, do início ao fim. Sem monstros para velar seu sono, suas noites se tornaram insuportáveis.

[um café, por favor]

DIFICULDADE DE EXPRESSÃO
A dificuldade de encontrar, para poder exprimir, aquilo que no entanto está ali, dá uma impressão de cegueira. É quando, então, se pede um café. Não é que o café ajude a encontrar a palavra mas representa um ato histérico-libertador, isto é, um ato gratuito que liberta.

Clarice Lispector.
(A Descoberta do Mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999. p.465)

quinta-feira, 10 de julho de 2008

[fundación mítica de buenos aires]



Fundación Mítica de Buenos Aires
Jorge Luis Borges

¿Y fue por este río de sueñera y de barro
que las proas vinieron a fundarme la patria?
Irían a los tumbos los barquitos pintados
entre los camalotes de la corriente zaina.

Pensando bien la cosa, supondremos que el río
era azulejo entonces como oriundo del cielo
con su estrellita roja para marcar el sitio
en que ayunó Juan Díaz y los indios comieron.

Lo cierto es que mil hombres y otros mil arribaron
por un mar que tenía cinco lunas de anchura
y aún estaba poblado de sirenas y endriagos
y de piedras imanes que enloquecen la brújula.

Prendieron unos ranchos trémulos en la costa,
durmieron extrañados. Dicen que en el Riachuelo,
pero son embelecos fraguados en la Boca.
Fue una manzana entera y en mi barrio: en Palermo.

Una manzana entera pero en mitá del campo
expuesta a las auroras y lluvias y suestadas.
La manzana pareja que persiste en mi barrio:
Guatemala, Serrano, Paraguay y Gurruchaga.

Un almacén rosado como revés de naipe
brilló y en la trastienda conversaron un truco;
el almacén rosado floreció en un compadre,
ya patrón de la esquina, ya resentido y duro.

El primer organito salvaba el horizonte
con su achacoso porte, su habanera y su gringo.
El corralón seguro ya opinaba YRIGOYEN,
algún piano mandaba tangos de Saborido.

Una cigarrería sahumó como una rosa
el desierto. La tarde se había ahondado en ayeres,
los hombres compartieron un pasado ilusorio.
Sólo faltó una cosa: la vereda de enfrente.

A mí se me hace cuento que empezó Buenos Aires:
La juzgo tan eterna como el agua y como el aire.


FUNDAÇÃO MÍTICA DE BUENOS AIRES
Tradução de José Jeronymo Rivera


E foi por este rio de soneira e de barro
que as proas arribaram para fundar-me a pátria?
Iriam aos vaivéns os barquinhos pintados
por entre os aguapés da correnteza arisca.

Pensando bem a coisa, vamos supor que o rio
era azulado então como oriundo do céu
com sua estrelinha rubra para marcar o sítio
em que jejuou Juan Díaz e os índios comeram.

O certo é que mil homens e outros mil arribaram
por um mar que de largo tinha umas cinco luas
ainda de sereias e endríagos povoado
e pedras imantadas que enlouquecem a bússola.

Fincaram alguns ranchos trêmulos pela costa,
dormiram assustados. Dizem que no Riachuelo,
mas estes são embustes que forjaram na Boca.
Um quarteirão inteiro e em meu bairro: Palermo.

Um quarteirão inteiro mas no meio do campo
exposto às alvoradas e chuvas e suestadas.
A quadra similar que persiste em meu bairro:
Guatemala, Serrano, Paraguay e Gurruchaga.

Um armazém rosado como as costas de um naipe
brilhou e lá no fundo conversaram um truco;
o armazém cor-de-rosa floresceu num compadre,
dono da esquina agora, e ressentido e duro.

Já o primeiro realejo salvava os horizontes
com seu porte queixoso, sua habanera e seu gringo.
Por certo o barracão já ostentava YRIGOYEN,
algum piano mandava tangos de Saborido.

Uma tabacaria incensou como rosa
o deserto. Já a tarde desmoronara em ontens,
e os homens compartiram um passado ilusório.
Só faltou uma coisa: o passeio defronte.

Para mim só na lenda começou Buenos Aires:
entendo-a tão eterna como a água e como o ar.

[post scriptum porteño]

"Por te falar eu te assustarei e te perderei? Mas se eu não falar eu me perderei, e por me perder eu te perderia."

"- na exigência da vida tudo é lícito, mesmo o artificial, e o artificial é às vezes o grande sacrifício que se faz para se ter o essencial."

Retirei as duas citações aí de cima de "A Paixão Segundo G.H.", anotadas a garranchos de ônibus.

E se por acaso você quiser ir também a Buenos Aires mas, por infelicidade, não puder contar com ninguém de lá, recomendo vivamente o Garden House Hostel. Ambiente simplesmente fantástico. Pessoas realmente amáveis. Perto de tudo.

[bsas]

Um lago profundo e monótono, duas vacas prostradas ao sol, uma pequena igreja sendo construída por mãos sujas e talvez crédulas: eis tudo até agora.

O de cima anotei num caderninho, enquanto fazia minha viagem de ônibus para Buenos Aires. Viagem que de tão longa e cansativa mais parecia penitência. Lia "A paixão segundo G.H.", coisa aliás que não deveria ter feito, pois é bem sabido por todos que é de mau tom abrir presente que não é seu (havia comprado o livro para presentear uma amiga minha que é de lá). Mas como paisagem é algo que não existe à noite e que cansa a vista de dia, não teve muito jeito (desculpa mais uma vez, Lu). Contudo, pese que a viagem tenha sido a pior parte da viagem, a minha estadia na terra de Borges foi fenomenal. Uma semana inteira. De lá trouxe Cortázar, Sabato, San Juan de La Cruz e o próprio Borges. E como nem só da palavra viverá o homem, provei o autêntico choripan argentino, assim como um e outro membrillo (que, convém dizer, estavam deliciosos).

Mas trouxe, sobretudo, meu próprio Zahir. E em lugar de ser uma diminuta moeda de 20 centavos, era uma família inteira lá do bairro de Nuñez. Família que, com amor quase compulsório, me acolheu e que agora também é um pouco a minha própria. Porém não é disso que quero tratar por ora. O tema "Buenos Aires" me veio por outro motivo.

No final desta página, meio a modo de nota de rodapé, transcrevi dois versos da letra de uma das canções do Gotan Project. Além de gostar da música, achei-a pertinente porque a história toda se passa num café (se você prestar atenção poderá ouvir o barulho de louças e talheres se chocando ao fundo, um burburinho e garçons repetindo os pedidos).

Por tudo isso me decidi não somente por colocar o vídeo que toca essa música (Celos) na seqüência mas, a um só tempo, evocar definitivamente minhas memórias com relação a Buenos Aires: movimento de amor grave e esquivo de tango.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

[entre mim e tu: automatiek]

Já não existem muitos automats por aí. Refiro-me aos grandes, a estabelecimentos inteiros, e não àquelas máquinas isoladas que vendem timidamente ou doces ou coca-cola. Na verdade, não conheço nenhum automat. No entanto, dizem que na Holanda - país que tem de tudo mesmo - existe uma cadeia enorme dessas lanchonetes self-service. Todas bem diferentes da figura de Hopper aí ao lado. Mas é uma dessas automats modernas o fio condutor do curta que queria que você visse. Ele se chama "Automatiek" (que é o nome que essas máquinas recebem lá na Holanda) e é sobre o encontro entre um homem e uma mulher.

terça-feira, 8 de julho de 2008

[inauguração]

A primeira vez é sempre difícil.
Mais vontade do que meios. Têm-se uma ligeira idéia do quê, mas nenhuma (ou quase nenhuma) de como.

Quis dar a este espaço a cara de uma cafeteria. Um lugar onde as pessoas pudessem marcar seus encontros, sentar para conversar (se juntas), sentar para observar as outras pessoas (se sozinhas), ou simplesmente tomar seu café a goles pequenos. Por ironia, não gosto de café. E também, por ironia, esta é uma cafeteria do tipo automat.

Toda minha estima e agradecimentos a Luiz Coelho, desde já sócio e amigo benemérito desta casa, a qual, reconheça-se, ele ajudou a alicerçar.

... Rasgam-se as sedas. A cafeteria já está funcionando.

Sirva-se. E seja bem-vindo!